Eco de Aragem

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Quase uma aranha venenosa


Hoje adormeci exatamente no momento em que precisava ausentar-me. Uma sonolência inesperada afastou-me dos ares estranhos que venho observando há meses. Com tudo o que aperto na pele, sinto-me, mais ou menos, uma aranha venenosa.

Há um cansaço que agarra os meus braços em cada mensagem escrita. Faz-me sentir sempre às voltas, nesses conhecimentos de muitos anos, afastados por tanta coisa. Haverá muitas razões para certas dores associadas ao rosto de cada um, se notarem cada vez mais. Na verdade, a empatia estará numa lista pequena de tristes razões para ser varrida dos favoritos. Sem sombra de dúvida, a isso chama-se verdade.

Mesmo agarrada por vozes “hilariantes”, cumpri uma linha de opções, uma linha de objetivos e caminhei no percurso que escolhi. Senti, também, os empurrões de quem decidiu não gostar de mim. Acho que todos sentimos esse fardo diário.

Sou honesta na minha escrita, publico a minha atenção e reservo uma neblina para não falar de forma clara sobre o que, por vezes, não aceito. Num gesto oportuno de simpatia, ofereceram-me um pequeno ramo de flores e colocaram-no no chão junto à minha porta. Fazê-lo desta forma, deixou-me pouco confortável, com umas lágrimas teimosas a habitar o meu rosto. Acho isso inaceitável e peço desculpa por não o ter recebido em mãos, já que a pequenez do gesto não precisa de ser descrita.

Não se entregam flores a uma pessoa colocando-as no chão!

Em muitas ocasiões, penso reconhecer uma amiga, duas, três e, afinal, o tempo e as reações levam os detalhes. A minha sonolência protege-me de desilusões e, muitas vezes, afasto-me do que um dia me magoou: uma frase, um gesto, um desalento ou uma ausência. As palavras que as pessoas amigas nos dedicam nem sempre são uma torneira de água morna. Tudo parece uma névoa quando o tempo passa lento e suave. Mas logo ali, naquele canto da cidade, numa distância curta e verde de interesses, tocam a minha alma com um despertador barulhento.

Sou uma aranha quase venenosa, lenta de aptidões, lenta de gestos desagradáveis, desligada numa avaliação rápida e muito sensível a palavras desabotoadas de simpatia.

Olho de novo para as flores que me ofereceram e balanço nas palavras relaxantes — regozijo, vontade e verdadeiras. Serão esses os presentes que recebi.

Devo ignorar tudo isto que escrevo na alma?

Respiro. Ofereço-me este intervalo. Escrevo de novo que, num determinado momento crucial para o meu bem-estar, a sonolência deu-me a mão e levou-me para campos verdes, para o abraço da simpatia e para novas metas a alcançar.

15 de julho de 2026

Maria Silva Monteiro