Eco de Aragem

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Falta o título de quem adora pintar

Linhas largas, discretas, e a tinta espessa e clara preparam o impacto de uma tela que absorve as sensações reveladas na simplicidade de cada toque. Relevos definidos na mente criativa surgem como uma ventania que junta preocupações que já passaram com o ar fresco da manhã de acalmia e um sol tímido quase ausente. Já se estragaram muitos sonhos, mas este vence a monotonia e a inércia ou a brandura dos dias.

Escolher a tinta branca para a próxima tela como montra de pureza, do bem e da luz é suficiente. Cada pincel prepara o tom escolhido na tinta espessa que determina as formas inacabadas de uma risca larga de vida. Este será o próximo projeto. Junto ao chão, um olhar para sessenta centímetros de tela ilumina uma parede que se enche de esperança e amor. As definições são as palavras dos outros que nos tiram a grandeza, a bondade e a intenção de pintar. Absorvem um elogio no ar que engolem sem escolher as palavras que se esperam. O que dizem e o que escrevem parecem pedaços de provocação de quem se esconde na falsidade e na dissimulação. Não são relevantes no gesto que escolhem. O que se pinta é um pedaço de alma, um momento de doçura, de incómodo, de dor e de alegria que nos apanha no ritmo da vida. Mas, acima de tudo, é algo simples, sem notícias avassaladoras. É um recorte de quem mistura as tintas com as palavras que a mente dita, com o alcance de dezasseis metros quadrados e o fugaz olhar de quem sobrevive.

Quem vê e não vê sente o último toque de um violino melancólico, adormecido na melodia, e na beleza dos sons tudo se move numa mensagem que não se diz. Nas palavras que não se ouvem, tudo se esbate no toque de um pincel. E o que se escolhe não se exibe, mas admira-se no aconchego do sucesso de quem ousa encher uma tela de luz e cor.

Ainda não está terminado esse momento de espreguiçar as tintas numa simples tela branca. E quem duvida saberá que a sonolência tem nome.

© Maria Silva Monteiro – 25 de outubro 2026